Álvaro Arthur do Nascimento Soares
INTEGRAÇÃO DE ENSAIOS BIOQUÍMICOS E ABORDAGEM COMPUTACIONAL NA INVESTIGAÇÃO DO POTENCIAL ESTABILIZADOR DE MEMBRANA ERITROCITÁRIA DO EXTRATO DE JUREMA-PRETA (Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.)
Resumo
A jurema-preta (Mimosa tenuiflora) foi investigada como fonte de metabólitos com potencial de modular a inflamação por um eixo central: preservação da integridade de membranas, reduzindo eventos líticos e, consequentemente, a amplificação de sinais pró-inflamatórios associados à liberação de conteúdos intracelulares. A casca foi seca (≈72 h), pulverizada e submetida à extração por maceração em etanol 80%. O extrato combinado foi filtrado e concentrado em evaporador rotativo até massa seca. Obteve-se 17 g de extrato a partir de 195 g de material vegetal, correspondendo a rendimento de 8,72% (m/m). O teor de fenóis totais foi quantificado por Folin–Ciocalteu em microplaca, com curva de ácido gálico de alta linearidade (R² = 0,9979) e percentuais de fenóis totais do extrato entre 31,97–36,64%, com média global de 33,90% (DP = 1,91%; CV = 5,64%). O teor de flavonoides totais foi determinado em microplaca pelo método do complexo com AlCl₃, com curva de quercetina e percentuais de flavonoides totais do extrato entre 1,99–2,17%, com média global de 2,06% (DP = 0,08%; CV = 3,83%). O efeito protetor de membrana foi avaliado em hemácias humanas no ensaio de estabilidade térmica: incubação da suspensão eritrocitária com o extrato (50–800 µg·mL⁻¹) e exposição a 54 °C por 20 min, seguida de quantificação da hemoglobina liberada (540 nm) e cálculo do percentual de inibição hemolítica. Observou-se redução significativa da hemólise em todas as concentrações testadas e resposta dependente da dose, com inibição variando de 27,58% (0,08 mg/mL) a 66,16% (0,60 mg/mL), mantendo patamar elevado (~61–66%) entre 0,40–0,80 mg/mL, compatível com aproximação a platô; nessa faixa, o desempenho foi comparável ao controle positivo (AAS 0,40 mg/mL: 63,97%), enquanto o controle de veículo não exibiu efeito significativo. Para sustentar a interpretação mecanística, foram conduzidos ensaios complementares: no modelo de desnaturação de albumina (ciclo térmico), o extrato inibiu significativamente a desnaturação em 0,70–1,00 mg/mL, com pico de 88,11% em 0,95 mg/mL e comportamento bifásico na maior dose; no ensaio de desnaturação enzimática (tripsina/caseína), a proteção tornou-se significativa a partir de 0,01 mg/mL e atingiu 77,99% em 0,05 mg/mL, com IC₅₀ estimado de 0,03901 mg/mL. Os ensaios antioxidantes indicaram capacidade redox mensurável (DPPH com IC₅₀ ≈ 2,54 µg·mL⁻¹; ABTS equivalente a 3.512,47 µmol Trolox·g⁻¹; FRAP ≈ 8,77 mmol Fe²⁺·g⁻¹), oferecendo suporte funcional ao fenótipo de estabilidade de membrana. Por fim, o docking molecular no AE1/Band 3 (PDB: 8T6U), com dipiridamol como referência, indicou que 19 dos 32 constituintes reportados para a casca ocupam o mesmo bolso do ligante, sustentando plausibilidade de contribuição de interações com AE1 para a modulação da estabilidade. Em conjunto, os achados mostram que o extrato da casca apresenta perfil convergente de citoproteção, no qual a estabilização da membrana eritrocitária sob estresse térmico emerge como desfecho-chave, apoiado por atividade antioxidante e antidesnaturante e por candidatos moleculares com potencial interação com AE1/Band 3.
